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O deslumbramento com a erudição católico-romana.

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O deslumbramento com a erudição católico-romana.

Mensagem por Eduardo em Seg 18 Jan 2010, 1:21 pm

O deslumbramento com a erudição católico-romana

Recentemente, chamou-me atenção a utilização, por um pastor presbiteriano, de um livro texto de um autor católico-romano para ensinar ética cristã em um curso de Escola Dominical. Os alunos foram incentivados a adquiri-lo e a tê-lo como base de instrução. O caso é intrigante, pois existem diversas obras bem escritas e fundamentadas, no campo reformado e evangélico sobre ética cristã. Por que não utilizar essas? A questão é tão amorfa e indefinida assim, que qualquer base interpretativa serve de alicerce? As cabeças dos alunos, não estariam sendo confundidas, em vez de esclarecidas? Após verificar o livro, em detalhe, fiquei ainda mais espantado, pois a base fundamental dele era a apresentação da Bíblia como uma compilação meramente humana de escritos religiosos, que não retratavam, necessariamente, os fatos ou situações descritas com veracidade ou autoridade. [1] Como desenvolver a compreensão de uma ética bíblica, se a própria Bíblia é colocada em suspeição?

A verdade é que há um deslumbramento em nossas instituições evangélicas de ensino, e em muitos pastores e líderes evangélicos, com a erudição católico-romana. Vários autores são pinçados a dedo como paradigmas da boa metodologia científica e erudição teológica (Croatto, Segundo, Mailhiot. Schökell, Lohfink, Schüssler-Fiorenza, e outros).[2] Há uma conseqüente importação de temas, por vezes já superados nas próprias academias que os originaram: a Alta Crítica (O Pentateuco não é da lavra de Moisés, mas obra de quatro redatores, identificados pelas primeiras letras dos nomes utilizados para designação da divindade ou do período nos quais foram escritos: JEDP), a Crítica da Forma, e – ainda a grande pérola querida da academia – a Crítica do Texto. Todas essas correntes presentes em alguns círculos teológicos do evangelicalismo têm em comum o descartar da Escritura Sagrada como texto inspirado; como revelação em forma objetiva, com proposições aferíveis (revelação proposicional) à humanidade, como Palavra de Deus confiável.

Procura-se hoje a análise do discurso, como forma de se chegar a uma compreensão da verdadeira mensagem que o autor ou autores procuraram registrar, e que está confundida com mitos, adições e trabalhos redacionais. Segundao esta visão, não existe texto íntegro. Todos estão sujeitos ao escrutínio da mente e especulação humana, que reina soberana postulando e definindo o que deve ser aceito e o que deve ser rejeitado. A simples idéia de uma revelação proposicional – de um Deus que intervém e interage com a produção intelectual da humanidade, por meio das Escrituras, de forma sobrenatural, é tão repugnante à pseudo academia teológica contemporânea, quanto a aceitação prima facie dos milagres registrados nos textos sagrados.

Interessantemente, enquanto as Escrituras são rejeitadas ipso facto como sendo Palavra de Deus, confiável e livre de erros, outros documentos, de cuja existência não se têm a mínima menção em autores antigos, nem a menor evidência de terem existidos, são aceitos, como por revelação divina. Assim, rejeitam-se diversas cartas de Paulo, como sendo epístolas do próprio (apesar de sua autoria ser declarada no texto), mas não se tem qualquer dúvida da existência de “Q”, como fonte primária dos evangelhos sinóticos (ao lado de “M” e de “L”), mesmo que esses textos sejam meras especulações. Gerados pelas similaridades que a verdadeira erudição cristã sempre identificou nos evangelhos sinóticos, com um razão tão simples quanto veraz: são todos documentos confiáveis, íntegros, ancorados nos fatos históricos da vida de Jesus, cerne de suas narrativas.

Mas essa verdade simples não serve, pois, partindo-se já da premissa da falta de integridade dos textos que dispomos, horas incontáveis de estudo e pseudo pesquisas são aplicadas no discernimento do pensamento das comunidades lucanas, petrinas, marcanas – supostamente grupos de cristãos responsáveis, como grupo, pelas idéias registradas nos livros que levam os nomes de autores bíblicos, que podem tão somente ser peças de ficção – tanto o texto final, como os autores.

A Bíblia é, nessa abordagem, um livro meramente humano – cheio de mitos, falhas, contradições e divergências entre si. A teologia de Paulo difere daquela teologia retratada no evangelho de Mateus, pois representa um desenvolvimento adicional do pensamento. Não temos complementação de verdades, mas desenvolvimento de idéias, seguindo tramas e caminhos restritos apenas pela ousadia da imaginação dos autores.

Qual a validade de tais estudos, então? Não representam a busca de um discernimento de proposições prescritivas, que podem auxiliar, como normativa, a postura dos Cristãos, em um caminhar que lhes dê paz, ou que agrade a Deus. Consistem apenas em exercícios acadêmicos; um fim em si mesmo; exercícios mentais de reconstrução historiográfica, partindo da premissa básica de que não existe palavra revelada, ou inspiração divina. Mesmo quando os textos, sob o escrutínio da crítica da forma (formgeschichte), estão estabelecendo modelos comportamentais – proibições e/ou permissões – eles são descartados por uma análise sociológica, ancorando tais prescrições nas condições vigentes, da era, invalidando qualquer aplicabilidade contemporânea. Essa visão segue, em coerência à rejeição da integridade dos textos, o entendimento da não existência de princípios absolutos, permanentes e de validade perene – relativizando todo inter-relacionamento social, às limitações comunitárias da época em que foram formuladas.

Há também aqueles que não estão tão preocupados com as fontes, mas que se prendem à análise dos textos – quaisquer que sejam esses, porque a sua própria existência e sobrevida demonstram que possuem importância intrínseca. Não, segundo esses acadêmicos, como documentos históricos, de fatos aferíveis, confiáveis ou verificáveis; mas, tão somente, como reflexo de experiências humanas a coisas que aconteceram. Essas questões e fatos não são tão importantes assim – mas o reflexo delas, esse deve ser estudado. Não há validade prescritiva, mas apenas um trabalho, cheio de tédio e verborragia, descritivo dessas narrativas, entremeados com observações que militam contra a integridade do que é dito.

Toda essa rejeição do texto sagrado está presente no livro ao qual me referi no início deste texto. Mas qual a validade dele, para o entendimento da Palavra de Deus? Como livro de ética, é uma mera coletânea descritiva dos discursos de Jesus, conforme o registro dos evangelhos, e de diretrizes encontradas nas cartas paulinas. No entanto, a integridade dos textos é descartada como premissa. De acordo com o autor deste livro, os evangelhos são mera produção humana, compilados de documentos primários, com trabalho de redação e adição aos eventos históricos, pelos compiladores – que podem até ter sido, mesmo, os evangelistas, Marcos, Mateus e Lucas. As cartas, não são necessariamente de Paulo (não interessa que comecem afirmando a autoria paulina, com uma mentira, dizendo que são – situação ética, que se fosse veraz, seria bem contraditória a qualquer ética, não acham?). Até as cartas que o autor considera que podem ser atribuídas a Paulo, foram embaçadas, na sua opinião, por um trabalho de composição e redação de possíveis escritos menores, com adições prováveis realizadas pelo redator.

Um livro de ética como esse, ao qual me refiro, não irá derivar regras comportamentais do texto sagrado, pois todos os direcionamentos nele encontrados são pertinentes à era. Tudo pode (e até deve) ser modificado, de acordo com ele. A conscientização da humanidade, a interação social através dos séculos, tudo isso está acima do texto sagrado e justifica a quebra das diretrizes, que não são aceitas nem como divinas, nem como universais e absolutas. Por exemplo, quando Paulo compara a relação social do casamento, à relação espiritual de amor que Cristo tem com a igreja, e daí deriva uma norma universal e perenemente aplicável, o autor diz que: “O Paulo de Efésios com certeza não vai além da estruturas sociais de seu tempo que em geral exigiam que as esposas fossem submissas a seus maridos” (p. 290). Nessa compreensão não temos, mais a palavra normativa de Deus com prescrições sempre atuais, mas um mero “Paulo de Efésios”, cujas diretrizes podem ser descartadas como anacronicamente inaplicáveis, por razões sociológicas.

É lamentável que tantos se afastem da simplicidade do evangelho e se enredem nessas vias complexas, que levam à confusão, ao ceticismo, ao descrédito da fé. É mais lamentável ainda que o povo de Deus receba esse tipo de ensino e orientação que mina a autoridade da Palavra inspirada do nosso Criador. O Tempora! O Mores!

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[1] MATERA, Frank J. Ética do Novo Testamento: os legados de Jesus e de Paulo. Tradução João Rezende Costa, do original: New Testament Ethics. São Paulo: Paulus, 1999, 379 pp. (professor de Novo Testamento na Catholic University, Washington, DC).

[2] Alguns autores católicos muito utilizados e suas obras mais comuns – disponíveis em português:
• GIRARD, Marc. Como Ler o Livro dos Salmos: Espelho da vida do povo. São Paulo: Paulinas, 1992. (Frei Marc Girard, canadense, professor na Universidade de Quebec).
• MAILHIOT, Gilles-Dominique. Os Salmos: Rezar com as palavras de Deus. Trad. Odila Aparecida de Queiróz. São Paulo: Loyola, 2008. (Frei dominicano, falecido em 2008, ensinou no Colégio Universitário Dominicano de Otawa, no Canadá).
• ALONSO SCHÖKEL, Luis. O Espírito Santo e os Salmos. Salmos e Exercícios. Trad. Maurício Ruffier. São Paulo: Loyola, 1998. (Católico espanhol, falecido em 1988. Estudou no Pontifício Instituto Bíblico, do Vaticano).
• SCHÜSSLER-FIORENZA, Elisabeth. “Exemplificação do Método Exegético”. In: SCHREINER, Josef (ed.). Palavra e Mensagem: introdução teológica e crítica aos problemas do Antigo Testamento, pp. 497-526. Trad. Benôni Lemos. São Paulo: Paulinas, 1978. (Elisabeth Schussler-Fiorenza é professora da Harvard Divinity School e identifica-se como católica).
• LOHFINK, Gerhard. Agora entendo a Bíblia. Para você entender a Crítica das Formas. Trad. Mateus Rocha. São Paulo: Paulinas, 1978. (ex-professor da Universidade de Tubinguen, na Alemanha. Católico, renunciou em 1986 para trabalhar com comunidades – livro escrito, nesse período: Jesus e Comunidade).
• BROOK, Wes Howard & Anthony GWYTHER. Desmascarando o Imperialismo: Interpretação do Apocalipse ontem e hoje. Trad. Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulus e Loyola, 2003. (jesuíta, ex-advogado do Senado Norte-Americano, decidiu estudar teologia depois de uma carreira bem sucedida como advogado. Ensina na Seattle University)
• BEAUCHAMP, Paul & Denis VASSE. A violência na Bíblia. Trad. Maria Cecília M. Duprat. São Paulo: Paulus, 1994. (Exegeta francês, jesuíta, já falecido).
• SEGUNDO, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré: dos Sinóticos a Paulo. Trad. Magda Furtado de Queiroz. São Paulo: Paulus, 1997. (autor uruguaio, jesuíta, já falecido).
• CROATTO, J. Severino. As Linguagens da Experiência Religiosa - uma introdução à fenomenologia da religião. Trad. de C. M. V. Gutiérrez. São Paulo: Paulinas, 2001. 513p. (Argentino, jesuíta).


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