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Consulta Bíblica
Ex: fé - Ex: Gn 1:1-10

Jesus e o paganismo.

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Jesus e o paganismo.

Mensagem por darkshi em Qua 11 Mar 2009, 11:07 pm

Tradução: Marcelo N. Motta
Pergunta:
Dr. Craig,
Obrigado por sua ajuda em tudo que você faz para mostrar a verdade que está em Cristo.
Na verdade eu só tenho uma pergunta, e, para ser franco, ela me
frustra inúmeras vezes. Acontece quase todas as vezes que eu debato
cristianismo com alguém.
A pergunta, “Jesus é um mito copiado ou uma pessoal real?” é a fonte
de objeção que eu recebo a maioria das vezes. Eles listam todas as
similaridades entre Jesus e outros deuses e constelações mitológicos e
dizem “Vê como são parecidos?”
Parece que não importa como eu refuto certa similaridade entre
Cristo e outra crença mitológica, eles não levam muito a sério o que
digo, porque respondem que “eu tenho trabalhado muito duro para salvar
minha religião.”
Esses argumentos são sólidos? Eles sequer são debatidos nos altos níveis acadêmicos ainda?
Eu realmente gostaria de saber sua visão nesse ponto, pois continuo
trombando nisso e francamente estou cansado de tentar refutar cada
similaridade.
Obrigado por tudo que você tem feito. Eu já fui um ateu, mas o
argumento a favor de valores e deveres morais objetivos foi o que me
levou a Cristo.
Kevin
Dr. William Lane Craig responde:
O falecido Robert Funk, fundador do radical Seminário Jesus,
reclamava amargamente do abismo que existe entre os principais estudos
e as crenças populares sobre Jesus. Funk pensava principalmente sobre a
distância entre o pietismo popular e o conhecimento histórico sobre
Jesus; mas em lugar algum o abismo é tão grande como entre a
irreligiosidade popular e os estudos sobre o Jesus histórico.
O movimento do Pensamento Livre, que alimenta a objeção popular que
as crenças cristãs sobre Jesus são derivadas da mitologia pagã, está
empacado entre os estudos do final do século XIX. De certa forma isso é
impressionante, já que existem muitos estudiosos contemporâneos
céticos, como os do Seminário Jesus, cuja obra os livre pensadores
poderiam utilizar a fim de justificar seu ceticismo sobre a compreensão
tradicional de Jesus. Mas isso só serve para mostrar como esses
popularizadores não têm contato com o trabalho de estudiosos sobre
Jesus. Eles estão um século desatualizados.
Voltando à época da chamada escola de História de Religiões,
estudiosos em religiões comparadas encontraram paralelos a crenças
cristãs em outras religiões, e alguns pensaram em explicar que essas
crenças (incluindo a na ressurreição de Jesus) foram influenciadas por
esses mitos. Hoje, no entanto, raramente algum estudioso pensa em mitos
como uma categoria importante para se interpretar os Evangelhos. Os
estudiosos perceberam que a mitologia pagã é simplesmente o contexto
interpretativo errado para se compreender Jesus de Nazaré.
Craig Evans chama essa mudança de o “Eclipse da Mitologia” na pesquisa sobre a vida de Jesus (veja seu artigo excelente “Life-of-Jesus Research and the Eclipse of Mythology,” Thelogical Studies 54 [1993]: 3-36).
James D. G. Dunn começa assim seu artigo sobre “Mitos” no Dicionário de
Jesus e dos Evangelhos (IVP, 1993) com a clara rejeição, “Mito é um
termo de, pelo menos, relevância duvidosa para o estudo de Jesus e dos
Evangelhos.”
Algumas vezes essa mudança é referida como a “rejudaização de
Jesus.” Pois Jesus e seus discípulos eram judeus do primeiro século, e
é contra esse pano de fundo que devem ser compreendidos. A rejudaização
de Jesus tem ajudado a tornar injustificado qualquer compreensão do
retrato dEle nos Evangelhos como influenciado significativamente pela
mitologia.
Essa mudança é proferida em relação à historicidade dos milagres e
exorcismos de Jesus. Estudiosos contemporâneos podem não estar mais
preparados para acreditar no caráter sobrenatural dos milagres e
exorcismos de Jesus do que os estudiosos de gerações anteriores. Mas
eles não estão mais dispostos a atribuir essas histórias à influência
dos mitos gregos do homem-divino (theios aner). Antes, os
milagres e exorcismos de Jesus devem ser interpretados no contexto das
crenças e práticas judaicas do primeiro século. O estudioso judeu Geza
Vermes, por exemplo, tem chamado a atenção aos ministérios dos
realizadores de milagres e/ou exorcistas carismáticos Honi “o
desenhista de círculos” (primeiro séc. a.C.) e Hanina ben Dosa
(primeiro séc. d.C.) e interpreta Jesus de Nazaré como um judeu
hassídico ou um santo. Hoje o consenso dos estudos sustenta que a
realização de milagres e exorcismos (apoiando a questão de seu caráter
sobrenatural) pertence, sem sombra de dúvida, a qualquer reconstrução
historicamente aceitável do ministério de Jesus.
O colapso da antiga escola da História de Religiões ocorreu por
principalmente dois motivos. Primeiro, estudiosos perceberam que os
paralelos alegados eram ilegítimos. O mundo antigo era um lugar cheio
de mitos de deuses e heróis. Estudos comparativos na religião e
literatura requerem sensibilidade às suas similaridades e diferenças,
ou o resultado será inevitavelmente distorção e confusão. Infelizmente,
aqueles que apresentaram paralelos às crenças cristãs falharam em
exercer essa sensibilidade. Veja, por exemplo, a história do nascimento
virginal, ou, mais precisamente, a concepção virginal de Jesus. Os
paralelos pagãos alegados a essa história são sobre lendas de deuses
que se materializaram e tiveram relações sexuais com mulheres humanas
para gerar uma prole humano-divina (como Hércules). Assim como esta,
essas histórias são exatamente o contrário dos relatos dos Evangelhos,
nos quais Maria concebeu Jesus sem ter tido nenhuma relação sexual. As
histórias dos Evangelhos sobre a concepção virginal de Jesus são, na
verdade, únicas no Oriente Próximo antigo.
Ou considere o evento dos Evangelhos que eu acho mais interessante:
a ressurreição de Jesus dentre os mortos. Muitas das alegadas
similaridades a esse evento são na verdade histórias apoteóticas, a
divinização e assunção do herói ao céu (Hércules, Rômulo). Outras são
sobre desaparecimentos, afirmando que o herói foi-se para um plano
superior (Apolônio de Tiana, Empédocles). Outras ainda são símbolos
sazonais do ciclo das colheitas, conforme a vegetação morre na estação
seca e volta à vida na estação chuvosa (Tamuz, Osíris, Adônis). Algumas
são expressões políticas de adoração aos imperadores (Júlio César,
César Augusto). Nenhuma delas é similar à idéia judaica de ressurreição
dos mortos. David Aune, especialista em literatura comparada do antigo
Oriente Próximo, conclui, “nenhum paralelo a elas [tradições da
ressurreição] é encontrado nos escritos greco-romanos” (“The Genre of the Gospels,” em Gospel Perspectives II, ed. R. T. France and David Wenham [Sheffield: JSOT Press, 1981], pg 48).
Na verdade, a maioria dos estudiosos chegaram a duvidar se,
apropriadamente falando, houve realmente algum mito de deuses que
morriam e ressurgiam! No mito de Osíris, um dos mitos sazonais mais
conhecidos, ele nem chega a voltar à vida, mas simplesmente continua a
existir exilado no sub-mundo. Numa revisão recente da evidência, T. N.
D. Mettinger informa: “A partir da década de 30… um consenso se
desenvolveu ao significado que os deuses, “que morriam e ressurgiam”,
morreram, mas não voltaram a viver novamente… Aqueles que continuam a
pensar diferente são vistos como sobreviventes de uma espécie quase
extinta.” (Tryggve N. D. Mettinger, The Riddle of Resurrection:
“Dying and Rising Gods” in the Ancient Near East [Stockholm, Sweden:
Almquist & Wiksell International, 2001], pg 4, 7
).
O próprio Mettinger acredita que mitos de deuses que morriam e
ressurgiam existiram nos casos de Dumuzi, Baal e Melqart; mas reconhece
que tais símbolos são bem diferentes da antiga crença cristã na
ressurreição de Jesus:
“Os deuses que morriam e ressurgiam estavam muito
ligados ao ciclo sazonal. Sua morte e retorno eram vistos como
refletidas nas mudanças nas plantas. A morte e ressurreição de Jesus é
um evento único, não se repete, e não está ligado às mudanças sazonais…
Não existe, pelo o que eu sei, nenhuma evidência clara que a morte e
ressurreição de Jesus são uma construção mitológica, baseada nos mitos
e ritos dos deuses sazonais das nações vizinhas. Enquanto for estudada
com proveito contra o pano de fundo da crença da ressurreição judaica,
a fé na morte e ressurreição de Jesus mantém seu caráter único na
história das religiões. O mistério continua (Ibidem, pg 221).”
Repare no comentário de Mettinger, que a crença na ressurreição de
Jesus pode ser proveitosamente estudada contra o pano de fundo das
crenças judaicas da ressurreição (não mitologia pagã). Aqui vemos
aquela mudança nos estudos no Novo Testamento que eu apontei acima como
a rejudaização de Jesus. A ilegitimidade das similaridades alegadas é
apenas uma indicação que a mitologia pagã é o esquema interpretativo
errado para compreender a crença dos discípulos na ressurreição de
Jesus.
Segundo, a escola da História de Religiões sucumbiu como uma
explicação para a origem das crenças cristãs sobre Jesus, porque não
houve nenhuma conexão causal entre os mitos pagãos e a origem das
crenças cristãs sobre Jesus. Veja, por exemplo, a ressurreição. Os
judeus conheciam os deuses sazonais mencionados acima (Ez 37.1-14) e os
acharam repugnantes. Por isso, não há traços de culto a deuses sazonais
na Palestina do primeiro século. Para os judeus, a ressurreição à
glória e imortalidade não aconteceria antes da ressurreição geral de
todos os mortos no fim do mundo. É inacreditável pensar que os
discípulos originais teriam súbita e sinceramente acreditado que Jesus
de Nazaré ressuscitou dentre os mortos apenas porque ouviram sobre
mitos pagãos de deuses que morriam e ressurgiam.
Mas, de certo modo, tudo isso é irrelevante à sua pergunta
principal, Kevin. Pois, como você mostrou, as pessoas com que você
conversa não têm acesso aos estudos. Quando você mostra a elas a
ilegitimidade das similaridades alegadas, então é acusado de “ter
trabalhado muito duro para salvar sua religião.” Essa é uma situação
que você não pode vencer. Então, estou inclinado a dizer-lhe que você
não deveria ocupar-se em “tentar refutar cada similaridade.” Antes, eu
acho que uma atitude mais genérica e desinteressada de sua parte pode
ser mais eficaz.
Quando eles disserem que as crenças cristãs sobre Jesus vieram da
mitologia pagã, eu acho que você deveria rir. Então olhe para eles com
os olhos arregalados e um grande sorriso e diga, “Vocês realmente
acreditam nisso?” Aja como se tivesse acabado de conhecer alguém que
acredite na terra plana ou na conspiração de Roswell. Você podia dizer
algo do tipo, “Cara, essas velhas teorias estão mortas há mais de cem
anos! Da onde você está tirando isso?” Diga-lhes que isso é apenas lixo
sensacionalista e não estudos sérios. Caso insistam, então peça a eles
que lhe mostrem as próprias passagens que narram a suposta
similaridade. São eles que estão nadando contra o consenso dos estudos,
então faça-os trabalhar duro para salvar a religião deles. Eu acho que
você descobrirá que eles nem se quer leram as fontes originais.
Se eles chegarem a citar um trecho de uma fonte, eu acho que você
ficará surpreso com o que verá. Por exemplo, no meu debate sobre a
ressurreição com Robert Prince, ele dizia que as curas que Jesus fez
vieram dos relatos mitológicos de curas, como as de Esculápio. Eu
insisti que ele lesse a todos uma passagem das fontes originais
mostrando a suposta similaridade. Quando ele leu, o que alegava não
tinha nada a ver com as histórias dos Evangelhos sobre as curas de
Jesus! Essa foi a melhor prova que a origem das histórias não estava
relacionada.
Lembre-se: qualquer um que insiste nessa objeção tem de suportar o
ônus da prova. Ele precisa mostrar que as narrativas são paralelas e,
além disso, que são causalmente ligadas. Insista que eles suportem esse
ônus, caso você leve as objeções deles a sério.

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